11 de março de 2008

SETÔR

Tenho evitado falar em público sobre a questão dos professores. Porque me parece confusa e cheia de equívocos. De parte a parte.
A razão pela qual os professores saíram da modorra conformada em que, na sua generalidade, habitualmente vivem, tem pouco a ver com a avaliação em si. E o governo deveria ter percebido isso. Não creio que a maioria tenha grandes problemas em preencher folhas de auto-avaliação ou a ser avaliados pelas chefias. Embora saibam que a dinâmica das aulas é outra quando um corpo estranho se infiltra no grupo, todos eles (falo dos ensinos básico e secundário, já que no superior, ninguém recebeu qualquer formação para o que está a fazer...) já estiveram nessa situação aquando do estágio. E acredito que a maioria gostaria de fazer mais e melhor.
Os professores saíram para a rua porque na última década têm visto o seu trabalho a ser menosprezado. Uma geração filha de pessoas com pouca formação académica, mas o rei na barriga pelo 7º ano tirado aos coices, sediada nas franjas das cidades e vilas, tomou conta da escola. Uma escola fraca, democrática, estupidamente democrática, que não percebeu o que aí vinha. Hoje, as aulas estão cheias de desordeiros, vândalos, totalmente legitimados e desresponsabilizados pelos pais e pelo Estado. O limitte desapareceu. E quando algum professor tenta traçar uma linha é agredido, insultado pelos pais e processado pelo Ministério.
A juntar a isto, veio a ameaça de despedimento. A insegurança. A razão por que muitos aguentavam esta humilhação constante. E o medo está a empurrá-los para a frente.
Creio, sinceramente, que este governo socialista produziu mais reformas em Portugal, reformas de fundo, do que todos os governos dos últimos 30 anos juntos. Mexeu com tudo e com quase todos. E cumpriu, na sua generalidade, tudo aquilo para que foi eleito: meter ordem na casa. Falta-lhe, contudo, a sensibilidade para distinguir o essencial do acessório e de ver até onde o esticar da corda sufoca os mais fracos. E o de confundir o medo das pessoas com a manha preguiçosa dos sindicatos. Faz muito bem em não dar ouvidos à súcia que suga trabalhadores e estado há 30 anos, sejam eles CGTPs, Ugts ou quejandos. Mas precisaria de ouvir os professores e todos aqueles que dizem, "Queremos participar da mudança só não queremos desaparecer por causa dela".

7 de março de 2008

O QUE FAZ FALTA

Nos últimos tempos, a toda a gente que eu conheço: dinheiro.
A mim, também, mas o tempo juntou-se-lhe reclamando carência, raios o partam|

ps: Claro que o que faz mesmo falta... é avisar a malta... do que faz falta

29 de fevereiro de 2008

DOCUMENTÁRIO - URBANO - WORK IN PROGRESS

Hoje percebi, subitamente, que faço documentários como escrevo livros: mergulho impiedoso no coração das personagens, procuro a imagem que revela o que não se diz, junto duas fotografias aparentemente díspares, para criar significados que não pretendem ser mais do que formas de trazer à luz o invisível que alguém traz dentro. O melhor que posso, com o pouco que tenho.
Hoje, durante a montagem, fiquei mesmo contente de não ter dado ouvidos a quem me aconselha a não me meter nas coutadas privadas, neste caso, o cinema. Como se ir até ao fim de um trabalho criativo com a maior honestidade não tivesse qualquer valor.

18 de fevereiro de 2008

A RODA

Pode ser tudo invenção para reconfortar o medo do futuro, mas há uma figura do Tarot que me parece justa: A Roda.
Tudo se move, o bem e o mal, a prepotência e a justiça, os dias claros e os dias escuros.
E se esta crença torna melancólicos os dias felizes, também ilumina, debilmente, os que parecem não ter fim.

16 de fevereiro de 2008

ÉVORA 2

Foi muito emocionante voltar à Biblioteca Pública de Évora, tantos anos depois.
Serviu-me de refúgio muitas vezes nos conturbados anos de adolescência.
Fechava às 5h, se bem me lembro, o que me obrigava a ler a correr, antes de fazer a pé os 2 ou 3 quilómetros até casa. Mas voltava sempre.
Entrar nela agora guiado pelo seu actual director, José António Calixto, foi uma recompensa inesperada.
Toquei as prateleiras novas, em nome das velhas, agradecendo-lhes as horas, as breves horas, de alegria, desses tempos.
A repetir.

14 de fevereiro de 2008


RESPONSABILIDADE SOCIAL

Por razões que não vêm ao caso, fui convidado a pronunciar-me sobre o trabalho de sustentação social de uma empresa. Foi curioso, por ser um tema que me interessa há muito. A ideia que uma empresa deve devolver à comunidade de onde recolhe os seus lucros parte desse enriquecimento.
Não sei se o governo estará a preparar alguma lei nesse sentido, porque sinto movimentações no sector. Mas atendendo à escalada daquilo que os comunistas costumavam chamar, e bem, o "Capitalismo Selvagem", parece-me óbvio que a única coisa que as empresas vão fazer é arranjar esquemas de cobrarem aos clientes essa responsabilidade.
É curioso como no meio desta crise económica, da aflição que está a comer a maior parte da população portuguesa, as grandes empresas ainda se assanhem mais para ganhar dinheiro. Mas, basta observar a natureza para saber que o medo e a dor nos olhos do gamo só atiça mais a violência e voracidade do leão.
Na verdade, penso que estamos todos a cair pela ravina abaixo, predadores e presas misturados, mas se calhar tem de ser assim. Só lá em baixo, do meio das rochas afiadas é que a nova ordem poderá surgir.

13 de fevereiro de 2008

BIBLIOTECA PÚBLICA DE ÉVORA

Vou estar amanhã, 5ª, em Évora, a trocar ideias, em sessão pública e aberta, com o Grupo de Leitura da Biblioteca. O RIO DA GLÓRIA serve de mote para a conversa.
Quem andar pelo Alentejo e quiser ir (lá pelas 21h, suponho) até ao edifício da Biblioteca, poderá participar.

7 de fevereiro de 2008

FESTIVAIS

Uma das coisas que mais se diz aos seleccionadores e programadores de de cinema, é que se tem uma rica vida. Passar dias e noites a ver filmes parece o paraíso.
Tentando simplificar a explicação, peço apenas que imaginem um jantar com o vosso prato favorito, mas com uma sopa horrível e uma sobremesa banal. Agora, visualisem o que é comer essa refeição, em meia-dúzia de variantes, durante meses e meses.
É isso, programar festivais de cinema.
Gosta-se muito, mas não é nem fácil nem, frequentemente qualquer coisa parecida com entretenimento.
Como diriam os meus vizinhos do lado: "C'est du travail, quoi!"

5 de fevereiro de 2008

SUL DE FRANÇA

Em trabalho, fora do país, tudo me parece mais leve.
Até a mitologia difundida nos nossos media ganha a sua dimensão verdadeira, de narrativa fantasiosa.
Que bom, ser português fora de Portugal.

30 de janeiro de 2008

MINISTRA DA CULTURA

Sai um erro de casting e entra, sem casting, uma "pessoa culta, que se interessa pela música e pela leitura". Bom, pior não pode ser. Tivesse também desaparecido o sinistro secretário de estado e entrado alguém competente para o lugar dele e estaríamos todos mais confiantes.
Pode ser, mas à primeira vista, parece-me uma escolha de engenheiro: para a cultura vai um tipo simpático que goste dessas coisas e não se importe de perder um ano ou dois a ir à abertura do S.Carlos. Sobretudo, um que não faça o chefe de família perder tempo com excentricidades e saiba que o lugar da Cultura é no salão. Ali, onde as damas sorriem coquetes por detrás dos leques de seda.
Já estamos habituados.Se fosse alguém que nos desse esperança é que seria de admirar.

ps: afinal, o senhor da ópera também se foi embora. Veio uma chefe de gabinete, ou coisa parecida, de não sei onde para o lugar. Obrigado pela sua visão para a Cultura, senhor engenheiro.

23 de janeiro de 2008

RAIO DE LUAR

Acabo tarde, o meu pequeno-almoço. Culpa do Luiz Pacheco e de ter desenterrado da estante uma compilação de crónicas publicadas há uns tempos. Algumas escritas nos anos 90, julgo.
Mesmo morto me faz rir, o Pacheco. Mesmo da casa de repouso onde está a escrever ou, na maior parte dos casos, a lembrar, ele me devolve uma realidade que é a mesma, delicadezas semânticas à parte.
Leitores de bestsellers: corram às livrarias e perguntem pelo Luiz Pacheco. Vão ver que o vosso percurso entre as prateleira de livros vai mudar, quando no próximo Natal forem fazer as comprinhas.
Começo tarde, o dia de trabalho, mas não consigo evitar a satisfeita sensação de que já o ganhei.

21 de janeiro de 2008


O MUNDO É UMA CONSTRUÇÃO
Se houvesse frase que explicasse bem a forma como a academia portuguesa e, consequentemente, o pensamento dos seus teóricos que ocupam regularmente os lugares de decisão do país,seria esta, publicada numa coluna de opinião do Expresso:
""Não se pretende aqui discutir se esta medida é correcta ou justa, mas apenas perceber quais os argumentos que a poderão ter sustentado". Este professor da Universidade Católica (presumo, pelo título da coluna...)resume o pensamento português: não nos interessa a realidade mas a elaboração teórica sobre ela.
É este pensamento que conduz às decisões dos tribunais, à inutilidade do ensino universitário e ao fecho a tudo o que toque a vida em concreto, ou às tomadas de posição pública de vários sectores da sociedade.
Daí que o conceito de Justiça seja isso mesmo, um conceito. Para escrever sobre, palrar sobre, mas nunca para fazer nada pela sua imposição.
De onde concluo que o meu país não existe. O que existe é um boletim universitário chamado "Portugal".

17 de janeiro de 2008

JORNAL DO INCRÍVEL

O FANTASPORTO continua a esmagar-nos a todos com a sua capacidade de imaginar o presente. Além de ir apresentar um número de filmes quase igual a todos os que receberam, consegue ainda a proeza de exibir 87 (oitenta e sete) filmes portugueses. Ora sabendo nós que a produção de longas em Portugal é de cerca de 5 a 7 longas anuais e que as curtas (boas, más e inenarráveis) não excedem 30 ou 40, concluímos ir assistir a um acontecimento semelhante à Dança do Sol, de 1917.
Claro que se houver fiscalização do ICA, pode acontecer algo semelhante ao que se passou o ano passado com a bilheteira, onde o meio milhão de bilhetes anunciados baixou (borlas incluídas, muitas) para menos de 30 mil.
O seu director já perguntou publicamente por que razão não lhe dá o Estado ainda mais dinheiro para montar stands em Cannes e pagar anúncios inúteis e milionários na Variety a autoproclamar-se "O maior festival português".
O que se pode dizer perante todo este delírio?
Fantástico, seria o mínimo...
COISAS DA ROMÉNIA

Este é um dos países com um cinema mais possante, no momento. Para isso contribuem as suas escolas e a prática de filmar em 35mm, aliadas a uma atracção pelo cinema do real (por assim dizer).
Houve um filme divertidíssimo, feito há alguns anos, que mostrava o equívoco que é a caridade com os países "desfavorecidos". Falo do delicioso, "Ajuda Humanitária".
O seu realizador, entretanto, dedicou-se à música e criou esta banda de Nightlosers:

11 de janeiro de 2008

AVIOES E COISAS ASSIM

Nunca se sabe o que nos aterra em cima.
Há dias em que levantamos voo contentes. Pensamos em passados felizes e em dias futuros. E é precisamente quando estamos parados na rua, a sentir as pessoas e o que o mundo parece ser que o peso da aeronave nos cai em cima.
Só por sermos humanos é que do chão ainda conseguimos ver uma nesga de céu.
Só por isso.

7 de janeiro de 2008

QUESTÕES METODOLÓGICAS

"O Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos analisa hoje a legalidade da injecção letal, o meio de aplicação da pena de morte mais usado no paíS" in PÚBLICO

Parece que alguns membros do referido tribunal, na última festa em casa de Bush, terão chegado à conclusão que a coisa saía mais barata com tacos de basebol. Outros discordam, referindo que com o que se gasta em produtos de limpeza, vai a dar ela por ela.
Vamos lá a ver como é que vão passar a despachar os negros americanos daqui para a frente.

6 de janeiro de 2008

NA MORTE DE LUIZ PACHECO

Não li muito deste autor. Mas o suficiente para perceber que a fronteira entre a franqueza e a loucura era ténue. E ainda bem. Neste país de lesmas hipócritas, que somos todos, de uma maneira ou de outra, toda a voz que chame às coisas os nomes simples que elas têm, faz falta.

ps: apesar de lamentavelmente realizado, o documentário sobre o escritor que passou ontem na RTP2 permitiu entrever um pouco do espírito de Luiz Pacheco. Enquanto nos ríamos da sua ousadia tão fora do nosso tempo, batia-nos a melancolia de perceber que estamos definitivamente ancorados nesta praia.

3 de janeiro de 2008

O AGARRADITO

Foi patético o espectáculo que o Miguel S. Tavares deu de si, ontem à noite, na TVI.
Não que fosse surpreendente.
Mas ver uma pessoa inteligente e capaz de analisar bem tantas coisas que acontecem no país, tentar convencer os espectadores a boicotarem os seus restaurantes favoritos para pressionar uma alteração da lei, foi triste. E só reforça a ideia que toda a toxicodependência, por mais aceite socialmente que seja, não passa disso mesmo: uma droga que impede o raciocínio dos melhores.
O cartoon do jornalista e do Vasco Pulido Valente,no Inimigo Público da semana passada foi de génio.
HIPOCRISIA MORTAL

Há anos que chamo a atenção para o assunto,a imprensa, parte dela, acordou agora: o número apresentado de vítimas mortais em acidentes de estrada não corresponde à verdade. É apenas o número de pessoas que morre no local do acidente, registado pela GNR. Falta a este valor o das estradas controladas pela PSP. E, mais importante, as pessoas feridas gravemente que não resiste aos ferimentos. Se juntarmos estes valores, os números sobem para o triplo (rondará quase 3000 mortes anuais).
Então porque insistem a GNR, o Governo e as televisões a propagandear um número menor?
Os últimos por estupidez, por preguiça e por termos uma imprensa que se tornou acéfala, uma correia de transmissão dos vários poderes.
Os dois primeiros porque necessitam de justificar o cumprimento de um objectivo: reduzir o número de vítimas mortais. Como isso não se verificou, preferem "perspectivar" os números.
Se não fosse revoltante, esta manipulação, diria que é simplesmente triste.

2 de janeiro de 2008

SERVIÇO PÚBLICO

Parece que o novo acordo ortográfico já chegou à RTP. Pelo menos à N.
Leiam e se quiserem dEstribuam.